domingo, 22 de outubro de 2017

DIZERES

Querido,
querido,
não me queiras contigo
nem me chames de amigo;
Não há mais de soltar
um brado, miúdo e embalado
sem que eu seja o primeiro a sorrir.
Querido
castigo
dizer palavra
sílaba, ou letra
sem nenhum motivo:
Amaldiçoo o próximo verso!
Purificai, Deus, o anterior!
Não fales,
nem me assaltes mais
Tens direito a gritar,

não a pedir
socorro

ŠIŠKIN, Ivan I. Осень на Крестовском острове (Outono na Ilha de Krestovsky). 1892 

quinta-feira, 23 de março de 2017

Horizontais nº 3.

Um rebuliço para o papel a pedir: “Agora!”.
Mas não; outra hora! quando passar a vontade. Por hora não tenho, como por fora, o amor pela saudade que demora, mas que chega em dias de temperatura amena.
Quem chora pela tarde? Quem chora?
Ora, eu choro.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

PAI NOSSO

REYNOLDS, J. The Infant Samuel at Prayer

Pai nosso, por que estais nos Céus?
Sacrificado está sendo o nosso nome.
Ouvi a voz do Vosso reino,
tende amor à nossa vontade,
assim a terra tornar-se-á céu.
O quão nosso nestes dias estais longe:
perturbai-nos com a Vossa ausência,
e assim perduramos
no ar de nos ter iludido.
Mas não Vos deixeis cair na tentação
de enviar-nos outro sinal,
porque nosso reino não tem o saber nem a memória.

Amém.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Horizontais nº 2.

Sobre nós: que ? Quanto mistério existe na pergunta disso? Quanto mistério queremos na pergunta disso? Por que de criarmos tantos meios e degraus nas e para as almas rasas que possuímos? Não há, convenhamos, mistério algum! E que de tanta simplicidade o enjoo rapidamente se desdobre, não o nego; no entanto não deveríamos, por isso apenas, termos tido o dislate de nos ouvirmos em ecos e acharmos serem estes nossas vozes. Ora, se olhássemos com atenção e sobriedade para com o que temos do que temos, diríamos, tão simples e calmamente: “é isto, apenas”. Se não o fazemos é porque o embrulho é-se útil para muitos. Pois que há demasiado mau-caratismo usado nos dizeres que autoclamam desconhecimento de si mesmo. São farsescos, que à hora das cortinas baixas a errância em duplicata de tais tolos ao ato púnico e à posterior súbita ignorância do próprio movimento os devorará na frente daquele que os vê com desânimo se afogarem em tantas pequenezas.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

ASSOMBREADO

Quão pequenino és, minguado homem
Olha para a tua altura, para os galhos que te cobrem
e lançam treva por quaisquer lados que se vê
Sente sob os pés a extensão de nossas terras
a buscar a estafa de teu ânimo
Pobre homem pequenino,
Tua vontade, apenas ela nós enxergamos;
Apenas, mirrado homem,
teu silêncio nos encobre
e nos move a dizer-te em dados dias
em que consegues nos arfar,
que as sombras que te cobrem a cabeça estão mais enegrecidas.




sábado, 6 de agosto de 2016

SÁBADOS

Raros sentem sábados
intocáveis, belos, longes,
como quadros conhecidos
só por livros, nunca vistos,
escondidos, feito monges,
intangíveis, santos...
Raros sentem sábados
e bem o fazem os que não;
Os que olvidam - esses sábios -
e não se perdem na saudade
presa em vãos,
entre Sextas de perfumes esperançosas e
domingos, que parados, conformados
com o fim que não é fim,
chamam pós-saudades das vontades
de uma véspera não sabida,
que não foi boa
não foi também ruim
Raros sentem
e os que sentem, talvez não sentem
e os que não, quem sabe o sentem
O certo é que quando sentem
perdem tempo, perdem também o sábado

MAKOVSKY, K. Summer Afternoon.





quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Horizontais nº 1.

Hei de eternamente cair em espanto para com minhas inclinações, como se em mim as tivessem no teor de um simulacro doutros que não sei. Não do que vi, não do que faz comigo par, elas empuxam em minha fala quando quero, quando digo, apenas compromissos que não trazem senão os solecismos para tudo. — Há problemas porque quero, não: “Há problemas, porque quero”! Meu querer põe a forma da estranheza mas não me põe em sua companhia, nem em forma, mesmo sendo eu a porta desta curiosa impostura.