segunda-feira, 2 de novembro de 2020

FINADOS, nº 7 - VEM, DOCE MORTE (Henriqueta Lisboa)

Vem, doce morte. Quando queiras.
Ao crepúsculo, no instante em que as nuvens
desfilam pálidos casulos
e o suspiro das árvores — secreto —
não é senão prenúncio
de um delicado acontecimento.

Quanto queiras. Ao meio-dia, súbito
espetáculo deslumbrante e inédito
de rubros panoramas abertos
ao sol, ao mar, aos montes, às planícies
com celeiros refertos e intocados.

Quando queiras. Presentes as estrelas
ou já esquivas, na madrugada
com pássaros despertos, à hora
em que os campos recolhem as sementes
e os cristais endurecem de frio.

Tenho o corpo tão leve (quando queiras)
que a teu primeiro sopro cederei distraída
como um pensamento cortado
pela visão da lua
em que acaso — mais alto — refloresça.

Caspar David Friedrich (German, 1774-1840), Kügelgen's Tomb (1821-22).

- Henriqueta Lisboa, in "Poesia geral", 1985.

FINADOS, nº 6 - MÁXIMAS, REFLEXÕES MORAIS [máxima] (Rochefoucauld)

« Le soleil ni la mort ne se peuvent regarder fixement.»

« Neither the sun nor death can be looked at with a steady eye. »

« Não é possível olhar fixamente para o sol nem para a morte. »

Henri-Pierre Picou (1824-1895) - The Passage (circa 1860).

- François de La Rochefoucauld, do original Réflexions ou Sentences et Maximes morales, (1664). Título em inglês Reflections, or Sentences and Moral Maxims. Tradução para o português de Marina Appenzeller (Máximas, reflexões morais).

FINADOS, nº 5 - FENOMENOLOGIA DO ESPÍRITO [trecho] (G. W. F. Hegel)

 « Dies Bewußtsein hat nämlich nicht um dieses oder jenes, noch für diesen oder jenen Augenblick Angst gehabt, sondern um sein ganzes Wessen; denn es hat die Furcht des Todes, des absoluten Herrn, empfunden. »

 « This consciousness was not driven with anxiety about just this or the matter, not did it have anxiety or that moment; rather, it had anxiety about its entire essence; It felt the fear of death, the absolute master. »

 « Essa consciência sentiu a angustia, não por isto ou aquilo, não por este ou aquele instante, mas sim através de sua essência toda, pois sentiu o medo da morte, do senhor absoluto. »

Maximilian Pirner (1853-1924), End of All Things, 1887, oil on canvas

-  George Wilhelm Friedrich Hegel, do original Phänomenologie des Geistes. Traduzido para o inglês [The Phenomenology of Spirit] por Terry Pinkard e, para o português, por Paulo Meneses; com a colaboração de Karl-Heinz Efken e José Nogueira Machado, SJ.Fenomenologia do Espírito.


FINADOS, nº 4 - Os Paraísos Artificiais [trecho] (Charles Boudelaire)

« La Mort, que nous ne consultons pas sur nos projets et à qui nous ne pouvons pas demander son acquiescement, la Mort, qui nous laisse rêver de bonheur et de renommée et qui ne dit ni oui ni non, sort brusquement de son embuscade, et balaye d'un coup d'aile nos plans, nos rêves et les architectures idéales où nous abritions en pensée la gloire de nos derniers jours! »

« A Morte, que não consultamos a respeito de nossos projetos e a quem não podemos pedir a aquiescência, a Morte, que nos deixa sonhar com felicidade e fama e que não diz nem sim, nem não, sai bruscamente de sua emboscada e varre num bater de asas nossos planos, nossos sonhos e as arquiteturas ideais em que abrigávamos em pensamento a glória de nossos últimos dias! »
Émile Friant (1863 - 1932) La douleur (Pain), 1898, Musée des beaux-arts, Nancy.

- Charles Boudelaire, do original Les Paradis Artificiels. Tradução para o português de Marina Appenzeller.


FINADOS, nº 3 - IRONIA DAS LÁGRIMAS (Cruz e Sousa)

Junto da morte que floresce a Vida!
Andamos rindo junto à sepultura.
A boca aberta, escancarada, escura
da cova é como flor apodrecida.

A Morte lembra a estranha Margarida
do nosso corpo, Fausto sem ventura...
ela anda em torno a toda a criatura
numa dança macabra indefinida.

Vem revestida em suas negras sedas
e a marteladas lúgubres e tredas
das Ilusões o eterno esquife prega.

E adeus caminhos vãos, mundos risonhos!
Lá vem a loba que devora os sonhos,
faminta, absconsa, imponderada, cega!

- Cruz e Sousa, do livro "Últimos sonetos", 1905.

Constantin Meunier (1831-1905) - Ophelia (1851-1905).
Constantin Meunier (1831-1905) - Ophelia (1851-1905).

FINADOS, nº 2 - SALMO 89:48

 

מט מִי גֶבֶר יִחְיֶה, וְלֹא יִרְאֶה-מָּוֶת;
יְמַלֵּט נַפְשׁוֹ מִיַּד-שְׁאוֹל סֶלָה.

« What man is he that liveth, and shall not see death?
shall he deliver his soul from the hand of the grave? »

(King James Version)


« Que valente viveria sem ver a morte,
escapando ao domínio do Sheol? »

(TEB)

Modesto "Katúfol" Urgell e Inglada (Spanish, 1839-1919), Cementerio (1878).

FINADOS, nº 1 - E DE REPENTE É NOITE (Salvatore Quasimodo)

 ED È SUBITO SERA                                                     E DE REPENTE É NOITE

Ognuno sta solo sul cuor della terra                                Cada um está só no coração da terra
trafitto da un raggio di sole:                                           
traspassado por um raio de sol:
 ed è subito sera.                                                              e de repente é noite.


- Salvatore Quasimodo 
Tradução: Geraldo Holanda Cavalcanti.

Carl Gustav Carus (German, 1789-1869), Friedhof im Mondlicht (ca. 1822).